Publicado em 16 mar 2026 • por Tatyane Oliveira Santinoni •
Uma iniciativa voltada à geração de renda e à reconstrução de trajetórias de vida foi foco de capacitação que beneficiou mulheres pré-egressas e egressas do sistema prisional em Mato Grosso do Sul. Em parceria entre a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), por meio do Escritório Social de Campo Grande, e o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), foi realizado, na capital, o Curso de Confecção de Ovos de Páscoa e Trufas, que reuniu 16 participantes do Estabelecimento Penal Feminino em Regime Semiaberto e Aberto, além de egressas do sistema prisional.
Totalmente gratuito e com carga horária de 8 horas/aula, o curso oferece certificação e tem como objetivo proporcionar qualificação rápida em uma área com grande potencial de geração de renda, especialmente no período da Páscoa.
De acordo com a instrutora de confeitaria e panificação do Senai, Miriel Isadora Miranda Moraes, as participantes aprendem técnicas fundamentais para a produção profissional dos chocolates. “Elas estão aprendendo desde o derretimento correto do chocolate, controle de temperatura e escolha do tipo adequado de chocolate, até as diferentes formas de produção, como ovos de colher, ovos trufados e trufas”, explica.
Durante a capacitação, também são apresentadas possibilidades de recheios e combinações de sabores, como paçoca, beijinho, brigadeiro de chocolate e doce de leite. Segundo a instrutora, o conhecimento adquirido pode ser aplicado não apenas na produção de ovos de Páscoa, mas também em outras áreas da confeitaria ao longo de todo o ano.
“Essas técnicas podem ser utilizadas para fazer trufas, bolos, tortas, cupcakes e diversos outros produtos. A trufa, por exemplo, é uma ótima fonte de renda e pode ser vendida o ano inteiro”, destaca Miriel, que atua há cerca de dez anos na área.
Além da qualificação técnica, o curso também evidencia o potencial de retorno financeiro para quem decide empreender. Conforme a instrutora, a margem de lucro na produção pode chegar a 100%, sendo considerada uma das melhores oportunidades de renda no período da Páscoa. A estimativa é que, em cerca de um mês de vendas, uma pessoa organizada e que se antecipe à produção possa alcançar até R$ 3 mil de lucro líquido.
Para a diretora do Escritório Social em substituição legal, policial penal Rozimeire Zeferino, a oferta de cursos profissionalizantes é uma das estratégias mais importantes para promover a reinserção social de pessoas que passaram pelo sistema prisional.
“Os cursos são um dos pilares da ressocialização, porque proporcionam autonomia financeira e dignidade. Muitas mulheres que deixam o sistema prisional são chefes de família e precisam de uma forma rápida de gerar renda. Capacitações em áreas como gastronomia, serviços gerais e estética ampliam essas oportunidades, seja por meio do emprego formal ou do empreendedorismo”, afirma.
Rozimeire destaca, ainda que, a realização das capacitações fora do ambiente prisional contribui para fortalecer o sentimento de pertencimento social. “O aprendizado de um novo ofício ajuda a reconstruir a identidade da mulher e a desenvolver a percepção de que ela é capaz de produzir, trabalhar e ocupar seu espaço na sociedade”, completa.
Entre as participantes está Kelly Cristina Tavares Oliveira, de 45 anos, que atualmente cumpre pena no regime semiaberto e trabalha no Escritório Social. Apaixonada por confeitaria desde a juventude, ela vê na capacitação uma oportunidade de transformar habilidade em profissão.

A reeducanda Kelly Cristina vê na capacitação uma oportunidade de transformar habilidade em profissão.
“Sempre gostei de fazer bolo desde os 12 anos, mas nunca tive qualificação técnica. Eu sabia fazer, mas não tinha as medidas certas e acabava não tendo lucro. Agora estou aprendendo tudo direitinho e isso vai me ajudar muito. Meu sonho é montar meu próprio negócio e trabalhar com doces, bolos e salgados”, conta.
Outra participante é Miriel Moraes, de 53 anos, que já possui experiência profissional na área gastronômica e atuou como chef em restaurantes de Campo Grande, incluindo estabelecimentos de culinária oriental. Para ela, a capacitação amplia horizontes e abre novas possibilidades de trabalho.
“Doce nunca foi muito a minha praia, mas uma chef completa precisa saber fazer de tudo. Esse curso está abrindo portas, porque além de aprender algo novo, também é uma oportunidade de renda. A gente pode vender trufas o ano inteiro e reinventar receitas a partir do que aprendemos aqui”, relata.
Para a direção da Agepen, iniciativas como essa reforçam o papel da qualificação profissional no processo de reinserção social, oferecendo às participantes não apenas conhecimento técnico, mas também novas perspectivas de futuro e autonomia econômica.

