Publicado em 21 fev 2026 • por Tatyane Oliveira Santinoni •
Fraldas geriátricas descartáveis estão sendo confeccionadas com mão de obra prisional em Mato Grosso do Sul e integram o Projeto Desdobrar – Cuidado e Dignidade. Inicialmente, uma oficina foi instalada no IPCG (Instituto Penal de Campo Grande) e as primeiras fraldas testes foram entregues ao Sirpha Lar do Idoso e ao Hospital São Julião, instituições que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade.
Nesta etapa, dez reeducandos atuam na oficina e receberam capacitação técnica da equipe do Sirpha. Foram confeccionadas 1.760 fraldas geriátricas, distribuídas em 220 pacotes, com oito unidades cada. Todo o material tem finalidade exclusivamente experimental e será submetido a testes de uso por um grupo de controle, incluindo idosos atendidos no próprio IPCG e usuários das instituições beneficiadas.
Durante a entrega, o diretor-presidente da Agepen, Rodrigo Rossi Maiorchini, destacou que a instituição conta atualmente com mais de 7 mil internos em atividades laborais e mais de 4 mil em cursos educacionais, da alfabetização à pós-graduação, ressaltando que o trabalho e a capacitação são fundamentais para reduzir a ociosidade e preparar os custodiados para o retorno à sociedade.
Idealizado pelo juiz titular da 4ª Vara Criminal, José Henrique Kaster Franco, com tratativas iniciadas em meados de 2025, o Projeto Desdobrar propõe a implantação de uma oficina de fraldas geriátricas com mão de obra do regime fechado, promovendo ressocialização, qualificação profissional e possibilidade futura de remuneração, além de atender demandas sociais.
A iniciativa reúne esforços da Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) e do Sirpha Lar do Idoso, com acompanhamento do município de Campo Grande, cujos procuradores avaliam a viabilidade de aquisição de insumos e remuneração dos internos.
O juiz José Henrique Kaster Franco ressaltou a evolução do trabalho prisional ao longo dos anos, lembrando que hoje o sistema reúne cerca de 250 empresas parceiras, ampliando as oportunidades de trabalho. Segundo ele, projetos construídos de forma coletiva demonstram que ações simples, bem executadas e guiadas pela confiança no ser humano geram impactos sociais significativos.
O presidente do Sirpha, Ivan Nery de Queiroz, destacou a alta demanda diária por fraldas geriátricas no atendimento aos idosos acolhidos. Segundo ele, cada idoso pode utilizar até quatro fraldas por dia, o que, considerando os 83 idosos atualmente atendidos, resulta em uma média de 240 fraldas diárias distribuídas aos cuidadores.
“Os testes irão priorizar o uso noturno, período em que é possível avaliar com maior precisão a eficiência do produto, especialmente quanto à absorção e à prevenção de vazamentos, fator essencial para evitar a troca excessiva de enxovais e o aumento da demanda da lavanderia”, afirmou. O presidente ressaltou ainda que a instituição atende pessoas a partir dos 60 anos, incluindo idosos de idade bastante avançada, o que reforça a importância de produtos de qualidade para garantir conforto, dignidade e melhor cuidado aos acolhidos.
Após o período de avaliação, será elaborado um relatório técnico, com base em questionários aplicados a usuários, pacientes e equipes, permitindo ajustes no produto antes de qualquer ampliação da produção. O objetivo é assegurar que o avanço do projeto ocorra sempre com foco na qualidade, segurança e conforto.
A diretora de Assistência Penitenciária, Maria de Lourdes Delgado Alves, enfatizou que o projeto beneficia tanto os internos quanto a sociedade, ao garantir dignidade, trabalho e apoio a pessoas que, muitas vezes, não têm condições de adquirir itens essenciais. “A iniciativa materializa os princípios da Lei de Execução Penal e demonstra a força da cooperação entre instituições”, disse.
Já a superintendente de Gestão do Hospital São Julião, Jéssica Mendes, destacou que a parceria com a Agepen já impacta positivamente a rotina hospitalar, ao viabilizar a produção de enxovais e roupas hospitalares. Sobre as fraldas, ressaltou que o insumo representa um dos maiores custos da assistência hospitalar no SUS e que a iniciativa pode contribuir para qualificar o atendimento e otimizar recursos.
A entrega das fraldas teste marca um avanço significativo do Projeto Desdobrar, consolidando um modelo de cooperação interinstitucional que prioriza a qualidade, a dignidade humana e a construção coletiva de soluções com impacto social.



