Sétima arte é sinônimo de cultura e esperança a mulheres em situação de prisão na capital

  • Publicado em 06 fev 2025 • por Keila Oliveira •

  • “A gente se vê nessas histórias, reflete e muda pensamentos.” A frase, dita por uma das internas do EPFRSAAA-CG (Estabelecimento Penal Feminino de Regime Semiaberto, Aberto e Assistência ao Albergado de Campo Grande), resume o impacto do “Conversas com Cinema”, que leva a arte cinematográfica para dentro dos muros do presídio. Mais do que uma sessão de filmes, a iniciativa promove acolhimento, reflexão e oportunidades para mulheres que cumprem pena.

    Criado pela produtora cultural Geiciane Feitosa e Lukas do Nascimento, o projeto nasceu de uma experiência universitária e, hoje, transforma o cotidiano de dezenas de mulheres privadas de liberdade. Iniciado em janeiro, está previsto para ser concluído neste mês de fevereiro e é financiado pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado e Turismo, Esporte e Cultura, e da Fundação de Cultura, com base na Lei Paulo Gustavo. A ação também foi realizada no ano passado com financiamento do Município.

    A ideia do “Conversas com Cinema” surgiu durante a graduação de Geiciane em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Como estagiária voluntária no projeto de extensão “O Cinema e o Audiovisual na Cidade: Preservação e Educação Para as Imagens e Sons”, coordenado pela professora Daniela Giovana Siqueira, ela acompanhou exibições de no sistema prisional.

    Foi o contato com as detentas que despertou nela o desejo de aprofundar essa ação. “Vi como elas se envolviam com as histórias e percebi o potencial do cinema como ferramenta de ressocialização”, conta Geiciane.

    O projeto se tornou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e, com o apoio do colega Lukas Nascimento, foi inscrito na Lei Paulo Gustavo Estadual, garantindo recursos para sua realização. O financiamento, oriundo do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e do Ministério da Cultura, possibilitou a compra de equipamentos, alimentação para as sessões e a contratação de profissionais para dialogar com as internas.

    “Queríamos que fosse uma experiência completa, que envolvesse aprendizado, troca e, acima de tudo, um olhar mais humano para essas mulheres”, afirma a idealizadora.

    Sessões que tocam vidas

    O “Conversas com Cinema” funciona como um cineclube, priorizando produções do cinema nacional que possam dialogar com as experiências das internas. Após as exibições, acontecem debates onde elas compartilham suas impressões e fazem conexões com suas próprias vivências.

    “Nosso objetivo é criar um ambiente sensível e compreensivo, onde elas possam falar livremente, se expressar e sentir que fazem parte de algo”, explica a cineasta.

    Este ano, já foram exibidos filmes como “Sai da Frente” (1952) “Dona Lurdes – O Filme” (2024) e Rio, Zona Norte (1957). A escolha das obras é adaptável, levando em consideração a recepção e os interesses das participantes. “Precisamos ouvi-las e observar suas reações para que possamos selecionar os filmes que mais fazem sentido para elas”, diz a coordenadora.

    Cada interna que participa das atividades culturais recebe remição de um dia na pena a cada 12 horas envolvida na atividade, o que significa um dia a menos na sentença.

    Mas o impacto vai muito além da redução da pena, proporciona uma nova perspectiva para o futuro. Os depoimentos das reeducandas mostram o impacto emocional da iniciativa. “É muito importante para a gente, pois o tempo passa e aprendemos diversas coisas.”, revela uma participante. “Eu espero chegar do trabalho para começarem a sessão!”, complementa outra.

    Segundo a coordenadora o do cineclube, é evidente que reflete também no pós-prisão. “Uma ex-interna nos encontrou e disse que sente falta das sessões, que participava de todas.”, comenta. E as policiais dizem que as internas ficam ansiosas, sempre perguntando quando será a próxima sessão”, comenta.

    Um futuro além das telas

    Diante do sucesso da iniciativa, os organizadores sonham em expandi-lo para outros espaços de vulnerabilidade social. “Nosso desejo é que mais mulheres tenham essa oportunidade. O cinema transforma, ensina e pode ser o primeiro passo para uma nova caminhada”, reflete Geiciane.

    Dessa forma, com histórias que inspiram e emocionam, o “Conversas com Cinema” busca demonstrar na prática que a cultura tem o poder de ressignificar vidas – e que dentro de cada interna há um universo de possibilidades esperando para ser redescoberto.

    O cineclube também se soma a outras iniciativas educacionais do presídio, como remição de pena por leitura, palestras e rodas de conversa com psicólogos.

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    Ressocialização

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