“Tecido de Afeto e Cura”: Com teatro e poesia, reeducandas da capital descobrem um novo olhar para a educação

Categoria: Ressocialização | Publicado: quarta-feira, agosto 28, 2019 as 12:08 | Voltar

Campo Grande (MS) – Em meio à arte, poesia e literatura, reeducandas da capital estão sendo inspiradas para o autoconhecimento e à transformação do saber. A ação “Tecido de Afeto e Cura” conta com a participação da atriz e escritora Cristiane Sobral e teve início, nesta quarta-feira (28.8), no Estabelecimento Penal Feminino “Irmã Irma Zorzi” (EPFIIZ).

As oficinas de teatro, poesia e prosa estão sendo desenvolvidas através da parceria entre a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen) e o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, por meio da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar e das Varas de Execução Penal.

Com oito horas de duração, a iniciativa também acontecerá no presídio feminino de regime semiaberto e aberto de Campo Grande, nesta sexta-feira (30.8), com a participação de 25 detentas. A ação se baseia na perspectiva da educação, que será aplicada como instrumento efetivo de prevenção e combate à violência contra mulheres e igualdades de direitos, ressocialização e eliminação de todas as formas de discriminação, com atividades focadas no desenvolvimento pessoal e profissional.

Os trabalhos consistem em aulas expositivas e práticas, jogos teatrais, exercícios de leituras dramatizadas e construção de "esquetes" cênicas, destinada às mulheres em cárcere. Ao todo, 20 reeducandas do regime fechado participam da iniciativa, que é coordenada pela Diretoria de Assistência Penitenciária (DAP) da Agepen.

A diretora da DAP, Elaine Arima, agradeceu o apoio da Coordenadoria da Mulher, que constantemente realiza diversas ações positivas com as mulheres privadas de liberdade. “É uma satisfação estar aqui hoje e tenho certeza que será um dia muito sensível e proveitoso, porque estamos em mãos muito talentosas”, afirmou, parabenizando o empenho dos servidores da Agepen pela busca de novas ações a serem trazidas às unidades prisionais, citando como exemplo, as atividades de combate à violência contra mulher em alusão ao Agosto Lilás.

Durante a abertura, a atriz Cristiane Sobral contou o testemunho de sua própria vida e realizou uma apresentação de performance. “Afeto é aquilo que transforma as nossas vidas, afeto é aquilo que movimenta as nossas desistências, chegamos a esse planeta com um grito de guerra e isso já vem dizer que a vida não é uma coisa fácil, não nascemos sorrindo, nascemos chorando, para dizer que nossas vidas vão ser algo de impactante”, ressaltou.

Escritora com nove livros publicados, Cristiane também é cantora, instrumentista, com uma trajetória de 20 anos como diretora de uma companhia de teatro na cidade de Brasília/DF e foi a primeira atriz negra a concluir o curso de Interpretação Teatral na Universidade de Brasília (UnB).

Segundo a atriz, a expectativa é que além dos benefícios que estão previstos na lei, como a remição de pena, essa oficina seja realmente um estímulo para a continuidade em ações de educação que são realizadas dentro das unidades penais. “A ideia é que esse trabalho possa contribuir para o processo de identificação dos sujeitos, que seja um divisor de águas no empoderamento feminino e que através da literatura possa motivar a transformação social dessas mulheres em situação de prisão”, reforçou Cristiane.

Durante o projeto, serão difundidas técnicas de leitura, de escrita e também jogos teatrais e a ideia é que até o final de cada oficina tenha uma pequena produção individual, de forma escrita no campo da poesia, e que poderá ser feita uma pequena publicação desse material futuramente, conforme explicou Cristiane.

A juíza da 3ª Vara de Violência Doméstica e Família, Jacqueline Machado, agradeceu o apoio de todos os envolvidos. “Sabemos que não se pode mudar o passado, mas podemos construir um novo futuro, podemos traçar um novo caminho, é claro que para isso temos que ter oportunidades e é o que estamos trazendo aqui hoje para vocês, a oportunidade de enxergar com outros olhos tudo que passou e tudo o que pode vir a acontecer na vida de vocês, que pode ser bem diferente, basta quererem e acreditarem no potencial. Todo mundo pode construir um novo caminho!”, ressaltou a magistrada que também é coordenadora da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar de MS.

Pela primeira vez participando de uma oficina de arte, a interna Daiane Suele Rodrigues Gomes, 31 anos, afirma estar muito empolgada com o que pode aprender. “Acredito que vou utilizar esses conhecimentos aqui dentro e lá fora também, me considero muito extrovertida e tenho vontade de atuar, hoje vejo uma possibilidade de me profissionalizar também”, garantiu.

Em discurso, a diretora do EPFIIZ, Mari Jane Boleti Carrilho, afirmou que é com muito orgulho que recebe a oficina com esse tema tão expressivo. “O afeto é o amor e o amor cura, tenho certeza que durante os trabalhos tudo envolverá o amor e é com esse amor que eu quero que vocês alunas se entreguem, porque o teatro mexe com nossa alma e nosso emocional; e através da arte podemos expressar muitos sentimentos, então aproveitem ao máximo”, enfatizou.

Ao final, foi realizado um sorteio de quatro obras literárias, dentre elas, produzidas por Cristiane Sobral. Presa há um ano, a reeducanda Ana Flávia Braga, de 21 anos, foi uma das ganhadoras. “Estou muito feliz com essa oportunidade de participar da oficina e espero aprender como interagir melhor com as pessoas, aprender a me conhecer também”, informou.

Também participaram da abertura, o juiz da 1ª Vara de Execução Penal de Campo Grande, Mario José Esbalqueiro Júnior; o diretor-presidente da Agepen em exercício, Acir Rodrigues; o chefe de Gabinete, Valdimir Ayala Castro; o gerente de Inteligência do Sistema Penitenciário, Pedro Paulo Prieto; as chefes de Divisões, Marinês Savoia (Promoção Social); Elaine Cecci (Trabalho); Rita de Cássia Argolo Fonseca (Educação); a diretora do Estabelecimento Penal Feminino de Regime Semiaberto e Aberto da capital, Cleide Santos do Nascimento Freitas; além de representantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul e agentes penitenciários.

Texto e Fotos: Tatyane Santinoni.

Publicado por: Tatyane Oliveira Santinoni

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